“A corrupção é uma praga que tem efeitos
corrosivos nas sociedades. Ela sabota a democracia e o texto da lei,
leva a violações dos direitos humanos, distorce os mercados, corrói a
qualidade de vida e facilita o crime organizado, terrorismo e outras
ameaças ao florescimento da segurança da humanidade. A corrupção fere o
pobre desproporcionalmente através dos desvios de fundos que deveriam ir
para o desenvolvimento, compromete a habilidade do governo em prover
serviços básicos, alimenta a desigualdade e a injustiça, além de
desencorajar a ajuda e o investimento externo. Corrupção é o elemento
chave no mau desempenho das economias e o principal obstáculo ao
desenvolvimento e ao combate à pobreza”.
De que corrupção nós estamos falando?
A
Bíblia trata do tema da corrupção da raça humana e do plano redentor de
Deus, do Gênesis ao Apocalipse; a corrupção “lato sensu” (o pecado, de
uma forma geral), que se desdobra em corrupções “strito sensu”
(manifestações específicas da rebelião humana). Nosso foco é na
corrupção como ferramenta de opressão econômica, afronta ao pobre; a
negação do acesso do outro aos direitos básicos pela mal uso de
dinheiro público, pagamentos de propinas, superfaturamentos, etc…
A corrupção se caracteriza
em três tipos: a incidental, a sistemática e a sistêmica. O fato é que
“corrupção” andará sempre de mãos dadas com a pobreza e, por esse
motivo, ela é uma questão de ordem moral e de direitos humanos.
Vejamos
alguns efeitos práticos da corrupção: o alto custo do acesso aos
serviços de saúde e educação; padrões de saúde e segurança públicas
precárias, riscos ambientais, violação dos direitos humanos,
precariedade do acesso à justiça.
O que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto?
Ao
refletirmos nas Escrituras, o que se espera que seja a práxis da igreja
de Cristo? “E criou Deus o homem à Sua imagem: à imagem de Deus o
criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). “E viu Deus tudo quanto tinha
feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto”
(Gn 1.31).
A desobediência da criatura humana abre as portas para
toda a cultura de violência e morte que vai descaracterizar a imagem de
Deus no homem. “A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e
cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida;
porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (Gn
6.11-12).
A corrupção, como a conhecemos, é talvez a violência em
sua forma mais cruel. Não é possível dissociarmos a ideia de corrupção
daquilo que entendemos como violência contra a dignidade humana, seja
pela promoção da precarização dos serviços públicos, pela facilitação do
crime ou pelo incentivo ao aumento da miséria.
A corrupção
aflige a terra desde a queda. Não é surpresa, portanto, que muitos a
vejam como algo normal, inevitável; um mal necessário na condução dos
negócios e a forma como o rico e o poderoso levam sempre vantagem sobre o
pobre e o fraco. Porém as Escrituras deixam claro que a corrupção é uma
injustiça e, mais do que isso, elas requerem um posicionamento contra a
corrupção.
O relato de corrupção, propina ou suborno mais
conhecido da história está na Bíblia. Foram as 30 moedas de prata dadas
pelos sacerdotes judeus a Judas Iscariotes para que ele os levassem até o
Jardim do Getsemani, onde Jesus e os discípulos passavam a noite. Lá
Judas mostrou a eles através do beijo da traição quem era Jesus. Judas
era ganancioso e o dinheiro significava para ele, muito mais do que
lealdade ou amor. Ele foi motivado por ganância e ganho pessoal. Quando
ele se deu conta do mal feito e das consequências da sua traição, jogou
as moedas no pátio do templo e cometeu suicídio (Mt 26 e 27; Mc 14; Lc
22).
Corrupção em forma de propina ou suborno é condenada ao
longo de toda a Escritura Sagrada. Samuel foi o primeiro dos profetas do
Antigo Testamento e um grande líder em Israel. Porém, mais tarde em sua
vida, em sua casa, ele acusou os seus filhos de não andarem em seus
caminhos. Foram avarentos, aceitaram subornos, torceram a lei (1 Sm
8.3). A distorção da justiça é uma das piores consequências do suborno
porque permite que o rico explore o pobre. Na despedida que Samuel fez
junto ao seu povo na coroação do rei Saul, ele perguntou: “…diga-me de
quem recebi suborno e com ele encobri meus olhos, e eu vo-lo
restituirei?” (1 Sm 12.3). Ele teve uma vida exemplar e a multidão não
hesitou em responder: “em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem
recebeste coisa alguma da mão de ninguém” (1 Sm 12.4).
Davi, rei
de Israel, fez uma pergunta retórica no Salmo 24: “Quem subirá ao monte
do Senhor ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e
puro de coração. Que não entrega a sua alma à vaidade e nem jura
enganosamente." No Salmo 26, porém, ele apresenta o homem que tem a mão
direita cheia de subornos em contraste com o outro homem do Salmo 15.5
que “não empresta o seu dinheiro visando lucro e nem aceita suborno
contra o inocente”.
O profeta Isaías elogia “…aquele cuja mão
não aceita suborno.” (Is 33.15). E o profeta Amós denuncia “vocês
oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre
nos tribunais” (Amós 5.12).
Escrevendo sobre a Bíblia e a
corrupção, Hermes C. Fernandes apresenta textos bíblicos categorizados
em modos distintos de fraude financeira nas esferas pública e privada,
mostrando a corrupção como algo inaceitável diante de Deus:
- Advertência contra a corrupção no funcionalismo público: Lc 3.12-13.
- Advertência contra a corrupção policial: Lc 3.14.
- Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário: Dt 16.19-20; Ex 23.8; Pv 17.23; Is 5.22,23; Sl 82.2-5a; Lv 19.15.
- Independência entre os poderes: Mq 7.2-3.
- Advertência contra a corrupção no Poder Executivo: Is 1.23; Pv 29.4; Pv 16.12.
- Advertência acerca dos assessores corruptos: Pv 25.5.
- Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo: Is 10.1-4
- Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial: Ez 22.12-13a; Pv 16.8; Pv 22.16.
- Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro: Pv 28.8; Ez 18.5,7-9; Ex 22.25; Sl 112.4-5,9.
- Advertência acerca dos Direitos trabalhistas: Jó 31.13-14; Ml 3.5; Cl 4.1; Lv 19.13.
- Advertência contra lucros desonestos: Os 12.7; Dt 25.13-16; Pv 11.1; Pv 16.11; Mq 6.11; Lv 19.35-36.
No
primeiro século depois de Cristo, o apóstolo Paulo se recusou a pagar
suborno ao governador romano Félix. O governador admitiu que Paulo não
havia feito nada de errado, mas ainda assim o manteve na prisão porque
“esperava que Paulo oferecesse a ele algum dinheiro” (At 24.26). Esse
tempo na prisão poderia ser gasto em visitas e encorajamento às igrejas
que Paulo havia fundado, ou (quem sabe) fazendo a tão sonhada viagem
missionária à Espanha. Nenhuma “justificativa” para o suborno poderia
ser maior do que essa que o apóstolo teve, mas ele se recusou a
aceitá-lo. Essas passagens nos mostram que, tanto no Antigo como no Novo
Testamentos, o suborno é entendido como um pecado contra Deus. Uma
perversão da justiça que permite com que o rico explore o pobre - e
dentre os pobres, mulheres e crianças são os que mais sofrem. Abusos de
poder que só satisfazem a ganância.
A corrupção não é apenas
moralmente errada. Ela mina o desenvolvimento econômico, distorce a
lisura na tomada de decisões e destrói a coesão social.
A corrupção mata! A corrupção é desonra a Deus e, por isso, é a antítese do amor ao próximo.
Considerando
que a corrupção, na perspectiva que está sendo descrita, é um dos
maiores, senão o maior, ato de violência direta ou indireta do homem
contra o seu semelhante e contra a criação, o que, então, um discípulo
de Jesus pode fazer? Que contribuição a igreja pode dar na luta contra a
corrupção? Considerando que toda lei de Deus converge em Cristo,
atraindo-nos pelo amor e conclamando-nos ao amor a Deus e ao próximo (Mt
22.36-38), aquele que é a expressão perfeita da vontade do Pai para o
homem, nos aponta o caminho a seguir.
A.Alves
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