O Mercado da Adoração
Ao começarmos este assunto é de extrema valia observar como Calvino já combatia estas influências humanistas em Genebra no século XVI. "O que o Senhor requer é somente a verdade interior do coração. Exercícios sobrepostos a ela devem ser aprovados, desde que supervisionados pela verdade rigorosamente útil ou marcas da profissão de nossa fé atestada aos homens. Também não rejeitamos o que tende à preservação da Ordem e da Disciplina. Mas quando as consciências são colocadas sob grilhões e ligadas pelas obrigações religiosas em assuntos em que pela vontade de Deus foram libertos, então devemos protestar corajosamente de modo que a adoração a Deus não se vicie pelas ficções humanas"[1] .
Com o passar dos anos, a evolução da Música evangélica, ou utilizando das palavras de moda, "Mercado da Música Gospel", tem sido percebida por muitos investidores que de olho nessa fonte rentável, tem investido somas consideráveis na produção de artistas e trabalhos direcionado para o público evangélico. Hoje aquele caráter "amador" de músicos evangélicos tem sido deixado para trás. Do ponto de vista musical, creio que era necessário como forma de aperfeiçoar a arte, mas para louvar o Senhor. Mas o mercado fonográfico tem investido em artistas e formado super-stars para satisfazer o desejo do ser humano de consumismo.
Adoração passou a ser um produto, e as pessoas que vão até uma igreja, são os consumidores. Se seguirmos este raciocínio de mercado, chegaremos a uma conclusão de que aquele que não estiver satisfeito com o produto tem todo o direito de procurar outro que lhe satisfaça.
De fato, o crescimento numérico e a presença de pessoas socialmente importantes na igreja têm atraído os olhos do mundo. A igreja tem sido considerada como um grupo significativo pelos políticos, pelos sociólogos, pela mídia eletrônica, enfim, ela tem sido vista. Deve-se perguntar, entretanto, se ser visto é o mesmo que ser relevante, se receber a atenção da mídia é sinal de importância real[2] .
Augustus Nicodemos em um de seus artigos falando sobre esse assunto comenta que, "em certa ocasião o Senhor Jesus teve de fazer uma escolha entre ter 5 mil pessoas que o seguiam por causa dos benefícios que poderiam obter dele, ou ter doze seguidores leais, que o seguiam pelo motivo certo (e mesmo assim, um deles o traiu). Em outras palavras, uma decisão entre muitos consumidores e poucos fiéis discípulos. Refiro-me ao evento da multiplicação dos pães narrado em João 6. Lemos que a multidão, extasiada com o milagre, quis proclamar Jesus como rei, mas ele recusou-se (João 6.15). No dia seguinte, Jesus também se recusa a fazer mais milagres diante da multidão pois percebe que o estão seguindo por causa dos pães que comeram (6.26,30). Sua palavra acerca do pão da vida afugenta quase que todos da multidão (6.60,66), à exceção dos doze discípulos, que afirmam segui-lo por saber que ele é o Salvador, o que tem as palavras devida eterna (6.67-69)"[3] .
O Senhor Jesus poderia ter satisfeito às necessidades da multidão e saciado o desejo dela de ter mais milagres, sinais e pão. Teria sido feito rei, e teria o povo ao seu lado. Mas o Senhor preferiu ter um punhado de pessoas que o seguiam pelos motivos certos, a ter uma vasta multidão que o fazia pelos motivos errados. Preferiu discípulos a consumidores.
Infelizmente, parece prevalecer em nossos dias uma mentalidade entre os evangélicos bem semelhante à da multidão nos dias de Jesus. Parece-nos que muitos, à semelhança da sociedade em que vivemos, tem uma mentalidade de consumidores quando se trata das coisas do Reino de Deus. O consumismo característico da nossa época parece ter achado a porta da igreja evangélica, tem entrado com toda a força, e para ficar.
O consumidor é orientado a ficar permanentemente insatisfeito e procurar satisfação nas novas experiências. O resultado mais grave de tudo isso é que, em meio a esse turbilhão de insatisfação, as pessoas se percebem sentindo necessidade de ter coisas absolutamente dispensáveis para sua vida, mas que elas julgam ser essenciais[4] .
Por consumismo quero dizer o impulso de satisfazer as necessidades, reais ou não, pelo uso de bens ou serviços prestados por outrem. No consumismo, as necessidades pessoais são o centro; e a "escolha" das pessoas, o mais respeitado de seus direitos. Tudo gira em torno da pessoa, e tudo existe para satisfazer as suas necessidades. As coisas ganham importância, validade e relevância à medida em que são capazes de atender estas necessidades.
Esta mentalidade tem permeado, em grande medida, as programações das igrejas, a forma e o conteúdo das pregações, a escolha das músicas, o tipo de liturgia, e as estratégias para crescimento de comunidades locais. Tudo é feito com o objetivo de satisfazer as necessidades emocionais, psicológicas, físicas e materiais das pessoas. E neste afã, prevalece o fim sobre os meios. Métodos são justificados à medida em que se prestam para atrair mais freqüentadores, e torná-los mais felizes, mais alegres, mais satisfeitos, e dispostos a continuar a freqüentar as igrejas.
A indústria de música cristã tem crescido assustadoramente, abandonando por vezes seu propósito inicial de difundir o Evangelho, e tornando-se cada vez mais um mercado rentável como outro qualquer. A maioria das gravadoras evangélicas nos Estados Unidos pertence à corporações seculares de entretenimento. As estrelas do gospel music cobram cachês altíssimos para suas apresentações. Há alguns "cientistas religiosos" que defendem abertamente que "o negócio das igrejas é servir ao povo". Ele defende que a igreja deve ter uma mentalidade voltada para o "cliente", e traçar seus planos e estratégias visando suas necessidades básicas, e especialmente faze-los sentir-se bem[5] . John Macarthur também compartilha das mesmas idéias, comentando sobre isso ele diz: "Não é difícil achar evidência desse tipo de pensamento na Igreja. Alguns ministérios contemporâneos categoricamente admitem que atender as necessidades das pessoas é seu objetivo principal"[6] .
Um efeito da mentalidade consumista das igrejas é o que tem sido chamado de "a síndrome da porta de vai-e-vem". As igrejas estão repletas de pessoas buscando sentido para a vida, alívio para suas ansiedades e preocupações. Assim, elas escolhem igrejas como escolhem refrigerantes. Tão logo a igreja que freqüentam deixa de satisfazer as suas necessidades, elas saem pela porta tão facilmente quanto entraram. As pessoas buscam igrejas onde se sintam confortáveis, e se esquecem de que precisam na verdade de uma igreja que as faça crescer em Cristo e no amor para com os outros.
Valdeci dos Santos comentando sobre esse tema diz que, estamos vivendo numa época da "McAdoração", ou seja, comparando-a a um lanche popular, a algo produzido em escala industrial. O público evangélico atual espera que as igrejas "providenciem um menu de diferentes e divergentes estilos de adoração e experiência. Porém a perspectiva bíblica e histórica sobre adoração não vê o culto público como focalizado na esperteza ou criatividade humana, mas na santidade de Deus[7] .
Augustus Nicodemus acredita que tudo isso que estamos vivendo é em sua maioria fruto da ação de Charles Finney no seu método de crescimento de igreja.
"Creio que há vários fatores que provocaram a presente situação. Ao meu ver, um dos mais decisivos é a influência da teologia e dos métodos de Charles G. Finney no evangelicalismo moderno. Houve uma profunda mudança no conceito de evangelização ocorrida no século passado, devido ao trabalho de Charles Finney. Mais do que a teologia do próprio Karl Barth, a teologia e os métodos de Finney têm moldado o moderno evangelicalismo. Ele é o herói de Jerry Falwell, Bill Bright e de Billy Graham; é o celebrado campeão de Keith Green, do movimento de sinais e prodígios, do movimento neopentecostal, e do movimento de crescimento da igreja. Michael Horton afirma que grande parte das dificuldades que a igreja evangélica moderna passa é devida à influência de Finney, particularmente de alguns dos seus desvios teológicos: "Para demonstrar o débito do evangelicalismo moderno a Finney, devemos observar em primeiro lugar os desvios teológicos de Finney Estes desvios fizeram de Finney o pai dos fatores antecedentes aos grandes desafios dentro da própria igreja evangélica hoje: o movimento de crescimento de igrejas, o neopentecostalismo, e o reavivalismo político"[8] .
Para muitos no Brasil seria uma surpresa tomar conhecimento do pensamento teológico de Finney. Ele é tido como um dos grandes evangelistas da Igreja Cristã, e estimado e venerado por evangélicos no Brasil como modelo de fé e vida. E não poderia ser diferente, visto que se tem publicado no Brasil apenas obras que exaltam Finney. Desconhecemos qualquer obra em português que apresente o outro lado. Nosso alvo, neste artigo, não é escrever extensamente sobre o assunto, mas mostrar a relação de causa e efeito que existe entre o ensino e métodos de Finney e a mentalidade consumista dos evangélicos hoje.
Em sua obra sobre teologia sistemática (Systematic Theology [Bethany, 1976]), escrita pelo fim de seu ministério, quando era professor do seminário de Oberlin, Finney revela ter abraçado ensinos estranhos ao Cristianismo histórico. Ele ensina que a perfeição moral é condição para justificação, e que ninguém poderá ser justificado de seus pecados enquanto tiver pecado em si (p. 57); afirma que o verdadeiro cristão perde sua justificação (e conseqüentemente, a salvação) toda vez que peca (p. 46); demonstra que não acredita em pecado original e nem na depravação inerente ao ser humano (p. 179); afirma que o homem é perfeitamente capaz de aceitar por si mesmo, sem a ajuda do Espírito Santo, a oferta do Evangelho. Mais surpreendente ainda, Finney nega que Cristo morreu para pagar os pecados de alguém; ele havia morrido com um propósito, o de reafirmar o governo moral de Deus, e nos dar o exemplo de como agradar a Deus (pp. 206-217). Finney nega ainda, de forma veemente, a imputação dos méritos de Cristo ao pecador, e rejeita a idéia da justificação com base da obra de Cristo em lugar dos pecadores (pp. 320-333). Quanto à aplicação da redenção, Finney nega a idéia de que o novo nascimento é um milagre operado sobrenaturalmente por Deus na alma humana. Para ele, "regeneração consiste no pecador mudar sua escolha última, sua intenção e suas preferência; ou ainda, mudar do egoísmo para o amor e a benevolência", e tudo isto movido pela influência moral do exemplo de Cristo ao morrer na cruz (p. 224)[9] .
Finney, reagindo contra a influência calvinista que predominava no Grande Avivamento ocorrido na Nova Inglaterra do século passado, mudou a ênfase que havia à pregação doutrinária para uma ênfase à fazer com que as pessoas "tomassem uma decisão", ou que fizessem uma escolha. No prefácio da sua Teologia Sistemática ele declara a base da sua metodologia: "Um reavivamento não é um milagre ou não depende de um milagre, em qualquer sentido. É meramente o resultado filosófico da aplicação correta dos métodos"[10] .
Na teologia de Finney, Deus não é soberano, o homem não é um pecador por natureza, a expiação de Cristo não é um pagamento válido pelo pecado, a doutrina da justificação pela imputação é insultante à razão e à moralidade, o novo nascimento é produzido simplesmente por técnicas bem sucedidas, e avivamento é o resultado de campanhas bem planejadas com os métodos corretos.
O Senhor Jesus preferiu doze seguidores genuínos a ter uma multidão de consumidores[11] . Creio que a igreja evangélica brasileira precisa seguir a Cristo também aqui. É preciso que reconheçamos que as tendências modernas em alguns quartéis evangélicos é a de produzir consumidores, muito mais que reais discípulos de Cristo, pela forma de culto, liturgias, atrações, e eventos que promovem. Um retorno às antigas doutrinas da graça, pregadas pelos apóstolos e pelos reformadores, enfatizando a busca da glória de Deus como alvo maior do homem, poderá melhorar esse estado de coisas.
Fazendo essa análise histórica, notamos que a música evangélica tem tomado os mesmos rumos da teologia que é pregada hoje. Há uma máxima cristã que diz "lex orandi, lex credendi", cuja tradução pode ser "o que se ora é o que se crê". Plagiando esta frase cremos que não seria errado se disséssemos hoje "o que se canta é o que se crê". A música evangélica hoje é permeada de citações e frases que elevam muito mais o homem do que a Deus. As músicas já são fabricadas com um propósito definido, ou seja, agradar o público.
Grandes grupos tem surgido no cenário nacional, fazendo grandes eventos reunindo milhares de pessoas, tudo isso, em nome de uma proposta de formação de "verdadeiros adoradores". Mas, quando analisamos o que está por trás, de tudo isso é uma proposta mercantilista, voltada para os "consumidores de adoração".
Notas:
[1] BAIRD, Charles W. A Liturgia Reformada. Ensaio histórico. São Paulo, SOCEP, 2001, p. 17.
[2] MARTINS, Jadiel Sousa. Charles Finney e A Secularização da Igreja. São Paulo, Parakletos, 2002, p.24.
[3] Augusto Nicodemus. Artigo não publicado: "Adoradores ou consumidores?".
[4] MARTINS, Jadiel Sousa. Charles Finney e A Secularização da Igreja. p.25
[5] Augusto Nicodemus. Artigo não publicado, "Adoradores ou consumidores?".
[6] MACARTHUR, John F. Jr. Nossa Suficiência em Cristo, São Paulo, Fiel, 1995, p. 132.
[7] SANTOS, Valdeci. Fides Reformata – Refletindo sobre a Adoração e o Culto Cristão. p.141.
[8] NICODEMUS, Augustus Lopes. Artigo não publicado, "Adoradores ou consumidores?".
[9] MARTINS, Jadiel Sousa. Charles Finney e a Secularização da Igreja. p. 106-124.
[10] Ibid p. 107.
[11] NICODEMUS, Augustus Lopes. Artigo não publicado, "Adoradores ou consumidores?".
Colossenses 2:6,7. O nosso relacionamento com Jesus Cristo , é algo que nos transforma de dentro para fora à imagem de Cristo. O texto desenvolve três aspectos deste relacionamento: 1- Nele radicados 2- Nele edificados 3- Crescendo em ações de graça. Esses tres aspectos nos ajudará termos um andar constante em nosso Senhor Jesus Cristo. Este espaço, foi criado para motivar o povo de Deus neste andar constante e crescente. Em Cristo, Alfredo Alves
domingo, 16 de novembro de 2008
À sua maneira jovens cultivam fé
À sua maneira, jovens cultivam fé
Especialistas apontam facilidade de migração e de mistura de crenças
Há seis anos, Valentim, de 20 anos, criado em família católica, é budista. São da mesma época os primeiros passos de Fany, de 27, no xamanismo e nos rituais do Santo Daime. Seu namorado, Gabriel, de 20, também segue as duas religiões, além de ser adepto do rastafarianismo - a mesma religião de Bob Marley (1945-1981). Wellington, de 21 anos, passou a freqüentar a igreja evangélica Bola de Neve há dois anos, após ser convencido por um vizinho. Eles podem divergir quanto a crença, mas estão unidos por viverem a fé em seu cotidiano.A trajetória dos quatro jovens contraria o senso comum que atribui a essa fase da vida uma postura individualista e pouco interessada em qualquer forma de religiosidade. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Instituto Polis, realizada em sete regiões metropolitanas (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), já identificava isso em 2005. O comportamento de mais de 8 mil jovens diante de assuntos como religião e política foi analisado para se traçar um perfil dessa população. Nesse universo, a participação em grupos é vivida por 28,1%, a maior parte pertencentes às classes A e B. A religião é o principal motivo que os une (42,5%), seguida por atividades esportivas (32,5%) e artísticas (26,9%).A forma como os jovens vivem a religiosidade, no entanto, chama a atenção. "Essa é uma geração que experimenta mais, entra e sai das religiões com facilidade", diz a antropóloga e pesquisadora do Ibase, Regina Novaes. "Muitas vezes, a procura leva a uma mistura de crenças pois eles se sentem mais livres para procurar um lugar em que se sintam bem." A vivência familiar é uma das explicações para a flexibilidade da fé. "Essa geração vem de famílias plurirreligiosas, o que é uma novidade", explica Regina.Valentim Conde Fernandes, 20 anos, tinha tudo para ser católico. A avó o levou para a igreja, a mãe freqüentava grupos de oração. Porém, aos 14 anos, o jovem começou a se interessar pelo budismo. O interesse cresceu a ponto de se tornar voluntário no Templo Zu Lai, em Cotia, na grande São Paulo. Nesse fim de semana, Valentim viajou para o Rio. O destino: um retiro espiritual. Seis anos após se converter, a família de Valentim também mudou. Aceita a religião do filho e seu objetivo: ingressar na Universidade Livre Budista e depois continuar seus estudos em Taiwan para se tornar monge. "O budismo foi fundamental para eu me entender melhor e para que eu não fosse mais uma pessoa mentindo para si mesma", diz ele. CRENTES Uma pesquisa feita neste ano por um grupo conduzido pelo teólogo Jorge Cláudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com cerca de 1.500 universitários paulistas de 17 a 25 anos reflete a tendência dos jovens buscarem sua própria fé. O estudo mostrou que 20% dos entrevistados se declaram crentes sem religião. Ou seja, estavam ligados a práticas religiosas, sem serem filiados a nenhuma delas. "É comum ouvir dizer que a juventude perdeu as crenças, mergulhou no niilismo, no consumismo e no individualismo e abandonou as práticas religiosas. No entanto, a pesquisa descobriu que, pelo contrário, o jovem cultiva intensa religiosidade, que se integra em sua vida", afirma o teólogo.Os dados encontrados pelo professor vão ao encontro dos últimos dados disponíveis do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo último censo, há três grandes mudanças em curso na religiosidade do brasileiro, e das quais os jovens até 24 anos fazem parte: queda no número de católicos, crescimento de evangélicos e aumento de pessoas que não se identificam com nenhuma religião tradicional.Pouco tradicional é uma definição para as crenças do casal de namorados Fany Carolina de Castro Matriccioni, de 27 anos, e o namorado Gabriel Santana, de 21. Fany além de seguir o xamanismo - religião que une os conhecimentos ancestrais de povos indígenas e representações de seres míticos e animais - também freqüenta sessões do Santo Daime, seita que ficou conhecida pelo uso da ayahuasca, planta nativa da região amazônica. Gabriel compartilha das duas crenças, mas também é seguidor do rastafári, crença fortemente influenciada pelo judaísmo e cristianismo. Entre seus preceitos estão o vegetarianismo e a proibição de cortar o cabelo, trançado em forma de dreadlocks. Para os rastas o uso da maconha é sagrado. "A maconha é usada como consagração. O que é banal para uns é sagrado para outros", explica Gabriel. CLASSE SOCIALApesar da liberdade para definir sua fé, a classe social ainda é um fator importante na escolha e na forma como os jovens encaram as religiões. Enquanto os de classe mais baixa estão mais propensos a seguir as igrejas pentecostais, os jovens das classes média e alta parecem mais livres e interessados em crenças pouco ortodoxas para os padrões do brasileiro. "São os crentes sem religião, ou os agnósticos, como muitos se definem. Levam mais em conta a fé e a espiritualidade do que as instituições religiosas. Entre jovens com maior acesso à educação e a bens culturais, esse perfil aparece com maior freqüência", diz Ribeiro.Para o cientista político Cesar Romero Jacob, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), há um núcleo de jovens urbanos e de classes média e alta que se encaixa nesse deslocamento das religiões tradicionais. No entanto, ele alerta que, seguindo a tendência da população em geral, o jovem das periferias das grandes cidades tende a trocar o catolicismo pelas igrejas evangélicas. "São as evangélicas neopentecostais que estão atraindo esses jovens da periferia, que se mostram presentes onde há falhas na oferta de serviços por parte do Estado, e onde a Igreja Católica não chega", analisa. No mapa da religião em São Paulo, traçado pelo pesquisador da PUC-Rio a partir dos dados do IBGE, a divisão fica clara: o centro expandido e a zona oeste são majoritariamente católicos (cerca de 83% da população), há bairros isolados, como a Liberdade, onde prevalece o budismo, e a zona leste é em sua grande maioria evangélica. "A moral rígida das evangélicas neopentecostais e pentecostais, como Assembléia de Deus, acaba sendo um porto seguro para as pessoas que se sentem inseguras em meio à falta de infra-estrutura e acesso a bens das periferias", afirma Jacob.O motoboy Wellington Silva de Oliveira Sanchez, de 21 anos, passou a freqüentar a igreja evangélica Bola de Neve, conhecida por reunir entre seus fiéis um número grande de jovens e surfistas, depois que um vizinho fez comentários sobre os cultos. "Ele falava que encontrava forças lá, que saía diferente depois do culto", conta. "Fiquei curioso, pensei que, se fosse tão bom assim, eu também queria isso", diz. Desde a primeira visita, já se passaram dois anos - a igreja existe há cerca de dez. "Vou toda semana, depois que largo o trabalho. Conheci minha namorada lá também."
Especialistas apontam facilidade de migração e de mistura de crenças
Há seis anos, Valentim, de 20 anos, criado em família católica, é budista. São da mesma época os primeiros passos de Fany, de 27, no xamanismo e nos rituais do Santo Daime. Seu namorado, Gabriel, de 20, também segue as duas religiões, além de ser adepto do rastafarianismo - a mesma religião de Bob Marley (1945-1981). Wellington, de 21 anos, passou a freqüentar a igreja evangélica Bola de Neve há dois anos, após ser convencido por um vizinho. Eles podem divergir quanto a crença, mas estão unidos por viverem a fé em seu cotidiano.A trajetória dos quatro jovens contraria o senso comum que atribui a essa fase da vida uma postura individualista e pouco interessada em qualquer forma de religiosidade. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Instituto Polis, realizada em sete regiões metropolitanas (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), já identificava isso em 2005. O comportamento de mais de 8 mil jovens diante de assuntos como religião e política foi analisado para se traçar um perfil dessa população. Nesse universo, a participação em grupos é vivida por 28,1%, a maior parte pertencentes às classes A e B. A religião é o principal motivo que os une (42,5%), seguida por atividades esportivas (32,5%) e artísticas (26,9%).A forma como os jovens vivem a religiosidade, no entanto, chama a atenção. "Essa é uma geração que experimenta mais, entra e sai das religiões com facilidade", diz a antropóloga e pesquisadora do Ibase, Regina Novaes. "Muitas vezes, a procura leva a uma mistura de crenças pois eles se sentem mais livres para procurar um lugar em que se sintam bem." A vivência familiar é uma das explicações para a flexibilidade da fé. "Essa geração vem de famílias plurirreligiosas, o que é uma novidade", explica Regina.Valentim Conde Fernandes, 20 anos, tinha tudo para ser católico. A avó o levou para a igreja, a mãe freqüentava grupos de oração. Porém, aos 14 anos, o jovem começou a se interessar pelo budismo. O interesse cresceu a ponto de se tornar voluntário no Templo Zu Lai, em Cotia, na grande São Paulo. Nesse fim de semana, Valentim viajou para o Rio. O destino: um retiro espiritual. Seis anos após se converter, a família de Valentim também mudou. Aceita a religião do filho e seu objetivo: ingressar na Universidade Livre Budista e depois continuar seus estudos em Taiwan para se tornar monge. "O budismo foi fundamental para eu me entender melhor e para que eu não fosse mais uma pessoa mentindo para si mesma", diz ele. CRENTES Uma pesquisa feita neste ano por um grupo conduzido pelo teólogo Jorge Cláudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com cerca de 1.500 universitários paulistas de 17 a 25 anos reflete a tendência dos jovens buscarem sua própria fé. O estudo mostrou que 20% dos entrevistados se declaram crentes sem religião. Ou seja, estavam ligados a práticas religiosas, sem serem filiados a nenhuma delas. "É comum ouvir dizer que a juventude perdeu as crenças, mergulhou no niilismo, no consumismo e no individualismo e abandonou as práticas religiosas. No entanto, a pesquisa descobriu que, pelo contrário, o jovem cultiva intensa religiosidade, que se integra em sua vida", afirma o teólogo.Os dados encontrados pelo professor vão ao encontro dos últimos dados disponíveis do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo último censo, há três grandes mudanças em curso na religiosidade do brasileiro, e das quais os jovens até 24 anos fazem parte: queda no número de católicos, crescimento de evangélicos e aumento de pessoas que não se identificam com nenhuma religião tradicional.Pouco tradicional é uma definição para as crenças do casal de namorados Fany Carolina de Castro Matriccioni, de 27 anos, e o namorado Gabriel Santana, de 21. Fany além de seguir o xamanismo - religião que une os conhecimentos ancestrais de povos indígenas e representações de seres míticos e animais - também freqüenta sessões do Santo Daime, seita que ficou conhecida pelo uso da ayahuasca, planta nativa da região amazônica. Gabriel compartilha das duas crenças, mas também é seguidor do rastafári, crença fortemente influenciada pelo judaísmo e cristianismo. Entre seus preceitos estão o vegetarianismo e a proibição de cortar o cabelo, trançado em forma de dreadlocks. Para os rastas o uso da maconha é sagrado. "A maconha é usada como consagração. O que é banal para uns é sagrado para outros", explica Gabriel. CLASSE SOCIALApesar da liberdade para definir sua fé, a classe social ainda é um fator importante na escolha e na forma como os jovens encaram as religiões. Enquanto os de classe mais baixa estão mais propensos a seguir as igrejas pentecostais, os jovens das classes média e alta parecem mais livres e interessados em crenças pouco ortodoxas para os padrões do brasileiro. "São os crentes sem religião, ou os agnósticos, como muitos se definem. Levam mais em conta a fé e a espiritualidade do que as instituições religiosas. Entre jovens com maior acesso à educação e a bens culturais, esse perfil aparece com maior freqüência", diz Ribeiro.Para o cientista político Cesar Romero Jacob, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), há um núcleo de jovens urbanos e de classes média e alta que se encaixa nesse deslocamento das religiões tradicionais. No entanto, ele alerta que, seguindo a tendência da população em geral, o jovem das periferias das grandes cidades tende a trocar o catolicismo pelas igrejas evangélicas. "São as evangélicas neopentecostais que estão atraindo esses jovens da periferia, que se mostram presentes onde há falhas na oferta de serviços por parte do Estado, e onde a Igreja Católica não chega", analisa. No mapa da religião em São Paulo, traçado pelo pesquisador da PUC-Rio a partir dos dados do IBGE, a divisão fica clara: o centro expandido e a zona oeste são majoritariamente católicos (cerca de 83% da população), há bairros isolados, como a Liberdade, onde prevalece o budismo, e a zona leste é em sua grande maioria evangélica. "A moral rígida das evangélicas neopentecostais e pentecostais, como Assembléia de Deus, acaba sendo um porto seguro para as pessoas que se sentem inseguras em meio à falta de infra-estrutura e acesso a bens das periferias", afirma Jacob.O motoboy Wellington Silva de Oliveira Sanchez, de 21 anos, passou a freqüentar a igreja evangélica Bola de Neve, conhecida por reunir entre seus fiéis um número grande de jovens e surfistas, depois que um vizinho fez comentários sobre os cultos. "Ele falava que encontrava forças lá, que saía diferente depois do culto", conta. "Fiquei curioso, pensei que, se fosse tão bom assim, eu também queria isso", diz. Desde a primeira visita, já se passaram dois anos - a igreja existe há cerca de dez. "Vou toda semana, depois que largo o trabalho. Conheci minha namorada lá também."
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