O termo Logos que vem do grego e é um dos mais importantes e pode ser traduzido como pensamento, razão, palavra, fala, conceito, discurso e conhecimento. Como exemplo, podemos dizer que se o mundo é racional é que o no mundo existe um logos.
Heráclito, filósofo grego que nasceu aproximadamente no ano 535 a.C., utiliza essa palavra, logos, na sua conhecida teoria do ser tomando ao termo logos como a grande unidade da realidade. Heráclito pede que escutemos a palavra logos, ou seja, que tenhamos paciência para que ele se manifeste por si mesma sem nenhum tipo de pressão para que ela apareça. Segundo o filósofo nós dispomos de um logos, ou da razão, que devemos utilizar para o conhecimento da realidade e a direção de nossa conduta.
Para Heráclito o logos é a razão que domina todo o universo e que faz possível a existência de ordem e regularidade no acontecimento das coisas. Para o filósofo, logos também está presente em nós e que deve servir para guiar-nos na nossa conduta e como instrumento para o verdadeiro conhecimento. Os estoicos, que provêm do estoicismo (movimento filosófico que surgiu no ano 301 a.C), acolhem esta tradição heracliteana ao considerar que o logos é o princípio divino que cria, domina e dirige a natureza e o universo.
O termo logos na comunidade cristã, já antes da redação atual do quarto evangelho, havia-se criado uma hino em que aparece o termo logos para descrever o divino mediador da criação que se fez carne. Com a ascensão da categoria logos, essa comunidade usou o termo como seu. Porém o conceito logos havia surgido no contexto cultural helenista, porém enquadrado numa perspectiva filosófica religiosa por Filón e carregado de aspectos sapientes da especulação religiosa dos judeus que dizia que Deus há direcionado sua palavra (logos) a humanidade. No entanto, ao confessar a dimensão divina do logos e ao afirmar que residia entre os homens, deu ao conceito um valor substancialmente diferente do que tinha na especulação religiosa Judeia e filosófica.
Aristóteles por outro lado apropriou-se de sentido diverso da palavra e definiu logos como um dos três modos de persuasão, o argumento da razão, em sua Ars Rethorica (Retórica). Para o autor, logos trata do próprio discurso, enquanto este prova algo, ou ao menos parece provar. Para Aristóteles, o logos seria algo mais sofisticado do que um entendimento comum, o logos diferenciaria o ser humano dos outros animais, possibilitando a compreensão do que é bom e do que é mal, do que é benéfico e do que é prejudicial e do justo e injusto no discurso, e pensamentos manifestos neste discurso, em outros seres humanos. Outros modos de persuasão são ethos e pathos, que referem-se, respectivamente, a convencer os ouvintes do caráter de alguém e apelo emocional.
Embora tenha defendido que cada uma das três formas de persuasão possa ser apropriada em determinadas situações, logos guarda certa superioridade em relação a ethos e pathos, na medida em que dados são mais difíceis de manipular do que opiniões de reputação e emoções. Esta posição é vista por muitos pesquisadores como uma resposta à Isocrates, que concentrou-se na ideia do logos em uma parceria com a filosofia para gerar uma sociedade consciente e ética. Seu objetivo, ao defender esta abordagem, foi o estabelecimento do bem comum por meio da compreensão da filosofia e aplicação do logos, com foco no discurso e razão.
Filósofos estoicos também se apropriaram do termo, cunhado o termo logos spermatikos, o princípio gerador do universo, esta forma de logos seria mais próxima de uma lei, que rege a maneira como o universo funciona, propiciando a sua fundação ao agir sobre a matéria inanimada. Um porção do logos estaria presente também nos seres humanos. Usando o termo logos em sentido mais ampla, os estoicos falaram também em um logos material, identificado com a natureza.
O conceito de logos spermatikos viria a influenciar os neoplatonistas, em sua busca por um principio. Plotino, o primeiro dos neoplatonistas, interpretou o logos como o princípio da meditação, e defendeu, em sua obra Meditações, que o logos existe como a inter-relação entre o Uno, o Espírito e a Alma, conhecidos como hypostases, a realidade fundamental que dá suporte a toda a existência. Logos seria o princípio mais elevado e os três inter-relacionados estariam em paridade, equilibrados pelo logos. Esta abordagem influenciou Agostinho de Hipona, que procurou reinterpretar Platão e Aristóteles a luz do cristianismo, para o que o conceito de logos ocupou papel de importante. Descreveu logos como "A Palavra Eterna Divina", com atributos de verdade e sabedoria, que estaria presente no messias cristão mais do que em qualquer outra pessoa.
Teólogos cristãos geralmente consideram que João 1:1 como o principal texto para suportar a crença de que Jesus é Deus, considerando a ideia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são iguais. Embora seja unicamente neste versículo que Jesus é chamado de "Verbo de Deus", o tema aparece por todo o Evangelho de João em variadas formas.
Embora o termo Logos não apareça como um título além do prólogo, todo o livro de João defende este argumento básico. Sendo o Logos, Jesus Cristo é Deus auto-revelado (Luz) e a redenção (Vida). Ele é Deus presente para o homem e por ele conhecido. Tomé o reconheceu como Deus quando duvidou de sua ressurreição (João 20:28), mas o Logos também é, de alguma forma, diferente de Deus, pois como disse João, "...estava com Deus". Deus e o Logos portanto não são dois seres e, por outro lado, não são simplesmente idênticos. Este aparente paradoxo permeia os evangelhos. Deus, quando age e se revela, não "exaure" o que Deus é e isto aparece em várias frases de Jesus:
«Eu e meu Pai somos um.» (João 10:30)
«...o Pai é maior do que eu.» (João 14:28)
Assim, o Logos é Deus ativo na criação, revelação e redenção. Jesus Cristo não apenas traz a palavra de Deus aos homens, ele "é" a palavra, o "Verbo". E este entendimento é o que foi proclamado no Credo niceno-constantinopolitano, resultado do Primeiro Concílio de Constantinopla em 381.
O teólogo Stephen L. Harris alega que João teria adaptado o conceito de Fílon de Alexandria sobre o Logos, identificando Jesus como uma encarnação do Logos divino que formou o universo (cf. Provérbios 8:22-36).
Entre os diversos versículos da Septuaginta e que adiantam o uso que será feito pelo Novo Testamento está «Pela palavra de Jeová foram feitos os céus, E pelo sopro da sua boca todo o exército deles.» (Salmos 33:6), que faz referência direta à história da criação em Gênesis. Teófilo de Antioquia faz referência a esta ligação em To Autolycus 1:7. Agostinho de Hipona considerava que, neste versículo, tanto logos ("palavra") quanto pneuma ("sopro") estava "próximos de serem personificados".
Alguns teólogos enxergam em «como no-los transmitiram os que foram deles testemunhas oculares desde o princípio, e ministros da palavra» (Lucas 1:2) uma primeira referência ao Logos e ao arche ("começo").
O Evangelho de João começa com um "Hino ao Verbo" que identifica Jesus como sendo o Logos e este, como sendo Deus. As quatro últimas palavras do versículo- literalmente "Deus era o Logos" ou "o Verbo era Deus" tem, particularmente, sido o tópico de diversos debates no cristianismo. Na frase em grego, tanto o sujeito (Logos) quanto o objeto (Deus) aparecem no caso nominativo e, assim, o complemento é geralmente diferenciado eliminando-se o artigo e colocando-o antes do verbo. Gramaticalmente, portanto, a frase poderia ser lida tanto como "o Verbo era Deus" quanto "o Verbo era um deus". Os primeiros manuscritos do Novo Testamento não faziam distinção entre caixa alta e caixa baixa, de forma que as crenças já existentes quando foram criados influenciaram a tradução, embora muitos acadêmicos vejam o movimento de "Deus" para o início da sentença como um indicador de uma ênfase mais consistente com "o Verbo era Deus".
O tema de João 1:1 - "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida" - seria o tema desenvolvido no primeiro capítulo de I João. Alguns autores notaram que eles compartilham as importantes palavras arche e logos. Outros afirmam que há relação entre a identificação de Jesus com logos em I João 1:1 e João 1:14. Por fim, Smalley afirma que "o primeiro verso em I João 1:1 faz referência ao Logos pré-existente e que os três seguintes, ao 'Logos encarnado'".
Logos como "verbo", "sabedoria" e a linguagem do Antigo Testamento
O Novo Testamento faz uso de diversas partes do relato sobre a "Sabedoria" no Antigo Testamento e as aplica a Jesus:
Assim como a sabedoria, Jesus existia previamente a todas as coisas e estava com Deus; A linguagem lírica sobre "a sabedoria ser o sopro do poder de Deus, refletindo a glória divina na forma de luz e sendo uma imagem de Deus", parece ser ecoada por I Coríntios 1:17-18 e I Coríntios 1:24-25 (versículos que asssociam a sabedoria divina com o poder), por Hebreus 1:3 ("sendo o resplendor da sua glória"), João 1:9 ("a verdadeira luz que, vinda ao mundo, alumia a todo o homem") e em Colossenses 1:15 ("a imagem do Deus invisível").
O Novo Testamento aplica a Cristo a linguagem sobre a importância cósmica da sabedoria como agente de Deus na criação do mundo: «Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele» (João 1:3)
Quarto, em face a crucificação de Jesus, Paulo transforma vivamente a noção da inacessibilidade da sabedoria divina em I Coríntios. "A sabedoria de Deus" (I Coríntios 1:21) não é apenas "misteriosa e oculta" (I Coríntios 2:7), mas também, definida pela cruz e sua proclamação, dos "estultos para o sábios do mundo" (I Coríntios 1:18-25)[22].
Através de suas parábolas e por outros meios, Jesus ensina a sabedoria. Ele é "maior" que Salomão, o sábio do Antigo Testamento e professor por excelência.
Há, de qualquer maneira, uma clara preferência no Novo Testamento pelo Logos como sendo a palavra dita ou uma afirmação racional, a despeito da disponibilidade desta rica linguagem e conceituação da sabedoria. João prefere falar sobre o "Verbo", um termo que oferece também uma rica complexidade de significados.
O Antigo Testamento deu uma contribuição essencial à mensagem cristológica essencial do Novo Testamento de Cristo como sendo o Logos. O Verbo está com Deus desde o princípio, é poderosamente criativo e é a personificação da expressão de Deus.
Apesar de, na literatura judaica pré-cristianismo, "sabedoria", "verbo/palavra" e, em todo caso, "espírito" serem "quase formas alternativas de descrever o poder ativo e imanente de Deus", há diversas considerações a serem feitas para entender por que João escolheu Logos ("verbo"/"palavra") e não "sabedoria". Anunciar, portanto, que a "Sabedoria era Deus e encarnou" poderia parecer sugerir que "a Torá era Deus e encarnou". No espaço de uns poucos anos, os cristãos passariam a identificar o Filho de Deus e Logos com "lei" ou "a Lei". Mas nem João e nem nenhum outro autor do Novo Testamento o fez. O mais perto disto pode ser encontrado em Gálatas 6:2 ("lei de Cristo") e em Romanos 10:4 (que, em algumas traduções, aparece como "o fim da lei é Cristo". Para os autores do Novo Testamento, Jesus substitui a Torá e suas qualidades, principalmente a "luz" e a "vida", que agora são atribuídas a Jesus, principalmente em João. Por fim, Paulo, Lucas (especialmente nos Atos dos Apóstolos) e outras testemunhas do Novo Testamento prepararam o caminho para o prólogo de João ao se utilizarem de Logos como significando a revelação de Deus através de Cristo.
Tanto na época do Novo Testamento como depois, o "Verbo" joanino apresentou diversas possibilidades cristológicas. Primeiro, a possibilidade de identificação e distinção. Por um lado, palavras procedem de alguém que fala, uma espécia de extensão dele e são, num certo sentido, iguais a ele ("o Verbo era Deus"). Por outro, uma palavra é distinta de quem a profere ("o Verbo estava com Deus"). Portanto, Cristo é identificado com YHWH, mas é diferente dele. Em segundo lugar, Deus proferiu o Verbo Divino já desde o princípio ("desde o princípio") e o Verbo "era" (e não "se tornou") Deus. Neste contexto, "Verbo" inicia a discussão sobre a pré-existência, pessoal e eterna, de Cristo como Logos.
Em terceiro lugar, palavras revelam quem as profere. Feliz ou infelizmente, palavras expressam o que está na mente. No Antigo Testamento, "a palavra de Deus" repetidamente denota a revelação de Deus e de sua vontade. O Evangelho de João consegue, assim, passar tranquilamente do linguajar sobre "o Verbo" para se concentrar em «o Deus unigênito que está no seio do Pai, esse o revelou.» (João 1:18) Como Filho de Deus enviado pelo Pai ou o Filho do homem que desceu dos céus de uma forma única e exclusiva, Jesus revela uma sabedoria celeste.
A.ALVES
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